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O Piano que Vestiu o Samba de Gala: O Adejo Eterno de Benito di Paula

Entre as teclas de marfim, o terno impecável e o balanço inconfundível de Retalhos de Cetim, São Paulo chora e celebra a partida do maestro que deu alma romântica e urbana à nossa música popular.

Há silêncios que pesam como o bronze, e São Paulo amanheceu sob um desses silêncios densos ao se despedir de Benito di Paula. Nascido Uday Vellozo nas alterosas de Nova Friburgo, mas paulistano por adoção, ofício e paixão visceral, o pianista e compositor que redefiniu as fronteiras do samba nos deixou aos 84 anos, após enfrentar bravamente um câncer. O homem do terno elegante, do sorriso largo e da relação indissociável com o teclado do seu piano colou sua própria trajetória à paisagem afetiva da metrópole.

Benito foi um ponto fora da curva na nossa história musical. Nos anos 1970, quando o país navegava por águas polarizadas e complexas, ele ousou sentar-se ao piano — um instrumento até então visto com reservas pelos puristas do samba tradicional — e injetou uma modernidade borbulhante no gênero. Misturou a cadência sincopada dos morros com a sofisticação da música romântica, flertou com o jazz, abriu alas para a latinidade e transformou cada apresentação num verdadeiro ritual de comunhão com o público. Como não lembrar do furor coletivo provocado por hinos geracionais como “Retalhos de Cetim”, “Charlie Brown”, “Beleza Que É Você Mulher” e “Tudo Está no Seu Lugar”? Eram canções que embalavam tanto os toca-discos das repartições e dos lares quanto a boemia pulsante da Boca do Lixo e dos grandes palcos paulistanos.

Para a cena cultural de São Paulo, a perda de Benito di Paula tem o gosto amargo de uma era que se transforma, mas também a certeza indelével da imortalidade. Ele ocupou o Theatro Municipal — o templo máximo da cultura na cidade — não apenas como artista consagrado, mas como parte viva da nossa identidade. Sua música tinha o poder raro de unir o sofisticado e o popular, fazendo o asfalto cinzento dançar ao som de uma levada única, calorosa e inconfundível. Nos últimos anos, ver sua vitalidade renovada nos palcos e em parcerias luminosas com seu filho, Rodrigo Vellozo, provou que o talento de Benito não envelhecia; transbordava.

O piano cala as teclas físicas, mas o eco de sua obra segue reverberando em cada esquina desta São Paulo que ele tanto cantou e encantou. Vá em paz, maestro. O seu samba continua lindo, e por aqui, tudo permanece — e permanecerá para sempre — no seu devido lugar.

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